Uma obra de Oscar Niemeyer diante de um dos maiores símbolos naturais da Amazônia merece mais do que um nome. Merece carregar uma história.
Há obras que são construídas apenas para cumprir uma finalidade. E há outras que, pela localização, pela arquitetura e pelo simbolismo que carregam, acabam se transformando em patrimônio de uma cidade e de sua gente.
O Mirante do Encontro das Águas certamente pertence a essa segunda categoria.
Não estamos falando de uma obra qualquer. Estamos falando de um projeto concebido por Oscar Niemeyer, um dos maiores nomes da arquitetura brasileira, implantado diante de um dos cenários naturais mais conhecidos e extraordinários da Amazônia: o encontro das águas escuras do Rio Negro com as águas barrentas do Solimões.
É difícil imaginar um lugar mais simbólico.
Ali estão os rios. Ali está a floresta. Ali está Manaus. Ali está a Amazônia.
E ali também estará uma obra destinada a atravessar gerações.
Por isso, sem questionar ou desmerecer qualquer nome já cogitado ou que venha a ser apresentado, penso que deveríamos aproveitar este momento para promover uma discussão maior:
Que nome está à altura do Mirante do Encontro das Águas?
Vou mais além:
Que história queremos contar às futuras gerações por meio desse nome?
É uma oportunidade que talvez não se repita.
Dar nome a um equipamento público dessa dimensão não deveria ser apenas uma formalidade administrativa. É uma oportunidade de preservar memória. Uma oportunidade de ensinar história. Uma oportunidade de fazer com que um nome leve as futuras gerações a perguntar:
Quem foi essa pessoa e por que seu nome está aqui?
Se o mirante está diante do Encontro das Águas, se sua própria razão de existir está profundamente associada à paisagem amazônica, aos nossos rios e à nossa natureza, parece razoável que entre os critérios considerados para sua denominação esteja a trajetória de pessoas que dedicaram suas vidas ao conhecimento, à valorização ou à defesa da Amazônia.
E o Amazonas tem muitos nomes que merecem ser lembrados: cientistas, pesquisadores, professores, ambientalistas, intelectuais e homens e mulheres públicos que deixaram contribuições importantes.
Não pretendo estabelecer aqui que exista apenas um nome possível.
Quero fazer exatamente o contrário. Quero provocar a discussão.
E começo colocando sobre a mesa um nome:
Evandro Carreira

É voltar no tempo quando falar em ecologia ainda era quase pregar no deserto.
Evandro das Neves Carreira nasceu em Manaus e representou o Amazonas no Senado Federal entre 1975 e 1983. Existe uma dimensão de sua vida pública que merece ser recuperada pelas novas gerações: sua insistência em colocar a Amazônia e sua preservação no centro do debate político brasileiro.
É necessário voltar no tempo para compreender o significado disso.
Estamos falando principalmente das décadas de 1970 e 1980.
Meio ambiente ainda não possuía a centralidade que possui atualmente. Expressões hoje incorporadas ao nosso cotidiano — sustentabilidade, biodiversidade, mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável, zoneamento ecológico-econômico — estavam muito distantes da agenda política e social que conhecemos.
Naquele ambiente, Evandro Carreira falava de ecologia, falava da floresta, falava dos rios e questionava modelos de ocupação da Amazônia.
Criticava a substituição da floresta por grandes empreendimentos agropecuários.
Defendia que desenvolvimento econômico e preservação ambiental não fossem tratados como ideias incompatíveis.
Décadas mais tarde, em sessão do Congresso Nacional alusiva ao Dia Mundial do Meio Ambiente, o senador amazonense Jefferson Praia recuperaria justamente esse aspecto de sua trajetória, lembrando que Evandro Carreira já se posicionava contra modelos convencionais de desenvolvimento e defendia a combinação entre crescimento econômico e preservação ambiental.
Isso ajuda a compreender o quanto algumas de suas preocupações antecederam debates que somente muito tempo depois alcançariam o centro das discussões nacionais e internacionais.
Há um aspecto particularmente revelador de sua trajetória.
Basta observar os títulos de alguns trabalhos publicados por Evandro Carreira durante e depois de sua passagem pelo Senado: (1) Amazônia envenenada pela dioxina; (2) A biota amazônica e a energia nuclear; (3) Contra a venda da floresta amazônica; (4) Ecologia: meio-ambiente é o grande problema”; (5) O extrativismo preservou a Amazônia; (6) Olho no olho: a economicidade da Amazônia está no peixe; (7) Pecuária, câncer da Amazônia; (8) A igreja e a ecologia; além de trabalhos relacionados à ocupação e ao desenvolvimento econômico da região.
Os títulos são registros de uma época e também revelam a insistência de um parlamentar em levar essas questões ao debate público.
Não se tratava, portanto, de uma preocupação eventual. A Amazônia ocupava parte substancial de sua atuação intelectual e parlamentar.
Quem lembra ou ouviu falar da CPI da devastação da Floresta Amazônica?
Talvez um dos registros mais significativos da atuação do senador tenha ocorrido em 1979. Naquele ano, o Senado Federal criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a apurar a devastação da Floresta Amazônica e suas implicações.
O presidente daquela CPI era Evandro Carreira. O relator foi o senador Aloysio Chaves.
É importante dimensionar historicamente esse fato.
Há quase meio século, uma comissão do Senado brasileiro investigava a destruição da floresta e procurava compreender suas consequências.
O trabalho da CPI resultou em recomendações que impressionam pela atualidade.
Entre elas estavam a necessidade de ampliar a pesquisa científica e tecnológica sobre os ecossistemas amazônicos, compreender melhor seu funcionamento e suas reações às transformações provocadas pela atividade humana e desenvolver métodos racionais de utilização dos recursos naturais que permitissem sua preservação e conservação.
Importante destacar que naquele debate já havia a defesa do zoneamento ecológico-econômico da Amazônia. Hoje, essas ideias parecem naturais. Naquele tempo, não eram, mas já havia uma voz que advertia sobre o futuro
Há pronunciamentos de Evandro Carreira no Senado que mostram a intensidade de suas preocupações.
Em 1979, ao discutir os riscos da devastação amazônica, relacionou o desequilíbrio da biota regional ao equilíbrio do próprio ecossistema planetário.
Em 1982, ao tratar da resistência de trabalhadores de Xapuri contra a derrubada da floresta, voltou a fazer uma defesa enfática de sua preservação e chamou a atenção para a relação entre a floresta, a fauna, a água e a proteção dos solos.
Pode-se concordar ou discordar de determinadas posições que Evandro Carreira adotou ao longo de sua vida política. Isso é natural em relação a qualquer personagem público.
Mas o registro histórico permite reconhecer uma característica de sua trajetória: a questão amazônica não era periférica em seu mandato.
E a preocupação ambiental aparecia quando ainda havia pouca disposição política e social para discutir seriamente as consequências da devastação da floresta.
E aqui eu entro com uma lembrança pessoal da minha vida profissional, bem lá no começo. Existe na verdade uma razão muito particular para que eu traga o nome de Evandro Carreira a esta discussão.
Não conheço sua história apenas pelos registros do Senado, pelos discursos ou pelas publicações que hoje podemos consultar.
Eu tive a oportunidade de vê-lo de perto em uma dessas discussões sobre a Amazônia.
Naquela época, eu trabalhava na COMPENSA, empresa do Grupo I. B. Sabbá, atuando como engenheiro operacional na indústria da madeira, formação que obtive pela então Universidade de Tecnologia da Amazônia — UTAM.
Em determinado momento, tivemos a oportunidade de receber nas instalações da fábrica um grupo de senadores em visita à empresa. À frente daquele grupo estava o senador Evandro Carreira, muito falante, muito questionador e dando uma verdadeira aula aos seus companheiros senadores.
Participei daquela recepção. Para mim, essa lembrança possui hoje um significado ainda maior.
Eu estava dentro de uma indústria cuja matéria-prima estava diretamente ligada à floresta amazônica e, diante de nós, estava um senador que fazia da discussão sobre os recursos naturais, a floresta e os modelos de desenvolvimento da Amazônia uma das marcas de sua atuação parlamentar.
Naquele tempo, talvez não fosse possível perceber inteiramente a dimensão histórica daquelas discussões. O tempo, entretanto, encarregou-se de dar outro significado àquela memória.
Décadas se passaram.
A UTAM tornou-se parte de outra história institucional. A indústria madeireira amazônica atravessou profundas transformações. As exigências ambientais mudaram. O conhecimento científico avançou.
E a preservação da Amazônia deixou de ser uma preocupação restrita a alguns pesquisadores, ambientalistas e homens públicos para se transformar em uma questão planetária.
Por isso, quando hoje vejo surgir diante do Encontro das Águas uma obra concebida por Oscar Niemeyer, vejo também a possibilidade de promover o encontro de duas histórias de vida: Oscar Niemeyer e Evandro Carreira
Há algo de extraordinariamente simbólico nessa possibilidade. Reflita comigo:
De um lado, Oscar Niemeyer, cuja arquitetura projetou o Brasil para o mundo.
Do outro, o Encontro das Águas, uma das manifestações mais impressionantes da natureza amazônica.
Entre ambos, existe agora a possibilidade de acrescentarmos um terceiro elemento: a memória de quem ajudou a defender essa natureza.
É por isso que eu entendo que o nome do mirante não deveria ser escolhido olhando apenas para o presente.
Evandro Carreira é o único nome?
Claro que não. E faço questão de dizer isso.
O Amazonas possui outros personagens com trajetórias que merecem ser estudadas e apresentadas à sociedade. Que venham esses nomes. Que sejam conhecidas suas histórias. Que sejam comparadas suas contribuições.
O que não deveríamos perder é esta oportunidade.
Uma obra dessa importância, concebida por Oscar Niemeyer e construída diante do Encontro das Águas, merece receber o nome de alguém cuja trajetória estabeleça uma conexão verdadeira com a Amazônia.
Eu dou início a essa discussão, afirmando que Evandro Carreira merece estar nessa discussão. Não apenas porque foi senador. Não apenas porque foi amazonense.
Mas porque, numa época em que a ecologia ainda ocupava pouco espaço no debate político brasileiro, ele decidiu falar sobre a floresta.
Decidiu questionar sua devastação. Decidiu discutir os modelos de desenvolvimento impostos à região. Decidiu falar sobre os rios, os peixes, os solos, a biodiversidade e os recursos naturais.
E decidiu fazer isso quando essas bandeiras ainda estavam longe de proporcionar reconhecimento político.
Daí a pergunta final: que história queremos deixar naquele lugar?
Daqui a algumas décadas, milhares de pessoas terão passado pelo Mirante do Encontro das Águas: crianças, estudantes, turistas brasileiros e estrangeiros.
E alguém certamente perguntará: – Por que este mirante tem esse nome?
A resposta deveria contar uma história.
Uma história sobre Manaus, sobre os rios, sobre a floresta, sobre a Amazônia.
Talvez seja exatamente essa a grande oportunidade que temos diante de nós.
Não escolher simplesmente um nome para uma obra.
Escolher uma memória para permanecer diante do Encontro das Águas.
Por isso, faço esta provocação pública:
Que nome está à altura do Encontro das Águas?
Eu começo a discussão colocando um sobre a mesa:
Evandro Carreira.
Outros certamente virão — e que venham.
Porque uma obra dessa dimensão merece que o Amazonas discuta e escolha, entre aqueles que ajudaram a defendê-la, uma memória à altura da sua história.

