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Eleições 2026: rearranjos na Câmara Municipal de Manaus

Emmanuel Baladeira por Emmanuel Baladeira
12 de outubro de 2026
em Política
0
Eleições 2026: rearranjos na Câmara Municipal de Manaus

Com o desfecho das eleições de 4 de outubro de 2026, a Câmara Municipal de Manaus (CMM) passará por uma reestruturação em seu quadro parlamentar. Ao todo, seis vereadores obtiveram êxito nas urnas — um eleito para a Câmara dos Deputados Federal e cinco para a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALEAM).

Impacto das Eleições de 2026

Discutir se foi uma vitória justa ou merecida é um debate secundário; afinal, em um regime democrático, a decisão soberana do eleitorado deve ser o ponto de partida. O foco central, contudo, reside nas consequências políticas e institucionais desse resultado para a capital amazonense.

Ampliação da Zona de Conforto do Executivo

Quem mais tem motivos para comemorar essa oxigenação forçada é, sem dúvida, o Prefeito de Manaus. Os três vereadores que figuravam como os mais ferrenhos e atuantes fiscais da gestão municipal — críticos incisivos tanto do atual quanto do ex-prefeito — foram justamente os eleitos. Com a transição para novos mandatos, esses parlamentares voltarão suas atenções para outras esferas federativas. O cenário que se desenha na CMM é desalentador: entre os suplentes e os parlamentares remanescentes, não se vislumbra, no horizonte imediato, nomes com o mesmo perfil combativo para exercer o papel constitucional de fiscalização do Poder Executivo. A perda do contraponto crítico fragiliza o parlamento e deixa a prefeitura em uma zona de conforto perigosa para o interesse público.

Oportunismo Político e o Uso do Fundo Eleitoral em Manaus

Outro ponto que exige profunda reflexão é a participação massiva dos demais parlamentares no pleito. Além dos seis vitoriosos, outros 24 vereadores disputaram o pleito e não lograram êxito. Trata-se de um retrato nítido do oportunismo político garantido pelas brechas da legislação eleitoral. Derrotados nas urnas, esses parlamentares não sofrem nenhum prejuízo prático: não perdem suas cadeiras na CMM e, crucialmente, não gastam um único centavo do próprio bolso. Toda a infraestrutura, publicidade e logística de suas campanhas foram custeadas pelo contribuinte, por meio do famigerado Fundo Especial de Financiamento de Campanha (Fundo Eleitoral).

Para um vereador, lançar-se candidato no meio do mandato tornou-se um negócio de risco zero e alto retorno pessoal. Trata-se de uma vitrine milionária financiada com dinheiro público. Muitos concorrem com a plena ciência de que não possuem densidade eleitoral para se eleger; utilizam a disputa como mero palanque de autopromoção, visando testar seus nomes ou pavimentar o terreno para a reeleição municipal que ocorrerá dois anos depois. Nesse jogo de cartas marcadas, a conta da vaidade política cai inevitavelmente no bolso do cidadão.

Crise Ética e Blindagem Corporativa na CMM

Essa debandada parlamentar em busca de posições no Poder Legislativo estadual e federal — envolvendo mais da metade da Casa — reforça a percepção popular de que esta é uma das piores legislaturas das últimas décadas na CMM. O esvaziamento de representatividade é acompanhado pelo avanço de escândalos éticos graves. A Casa assiste, em aparente torpor, ao envolvimento de vereadores em esquemas de peculato (“rachadinha”). A situação atinge contornos de deboche institucional: um dos investigados cumpre medidas cautelares e usa tornozeleira eletrônica há meses, estando proibido de ultrapassar a catraca física da Câmara e de frequentar o plenário. Contudo, beneficia-se de uma decisão que lhe permite exercer o mandato e votar de forma remota, do conforto de sua residência, enquanto recebe religiosamente seus subsídios e verbas de gabinete.

A postura da presidência da Casa e da Comissão de Ética diante desses fatos é de uma omissão estarrecedora. Ao alegarem que o problema pertence exclusivamente ao Poder Judiciário e ao recusarem a abertura de comissões internas de apuração, os pares blindam os seus. O resultado dessa inércia corporativista é a normalização do desvio ético: enquanto a CMM “aguarda a justiça”, o número de parlamentares citados em esquemas semelhantes salta de um para dois.

Subserviência ao Prefeito e Absenteísmo no Plenário

A degradação da função parlamentar reflete-se também na subserviência ao Poder Executivo. Na atual legislatura, qualquer tentativa de convocação de secretários, pedidos de informação ou criação de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) para investigar denúncias na Prefeitura de Manaus é sistematicamente atropelada. Formou-se no plenário um autêntico “cercadinho” de blindagem ao prefeito. Essa tropa de choque opera sob uma lógica promíscua de troca de favores — onde o rigor da fiscalização é negociado em troca de cargos, emendas e benesses governamentais.

A essa subserviência soma-se o desrespeito cotidiano com o trabalho legislativo: a rotineira ausência de quórum e o esvaziamento das sessões plenárias. As imagens frequentes de um plenário deserto envergonham a população. A justificativa padronizada de ausência por “motivo de força maior” tornou-se um privilégio. Na iniciativa privada, nenhum trabalhador se dá ao luxo de faltar ao emprego sob alegações genéricas sem sofrer sanções sumárias. Na CMM, o absenteísmo é tolerado e até remunerado.

Enquanto o Brasil não avançar para a unificação dos pleitos eleitorais ou para reformas estruturais na legislação, a sociedade continuará refém dessa imoralidade custosa.

A resposta da classe política a essas críticas é invariavelmente o escudo da legalidade: alegam que cumprem as regras do jogo. Ocorre que as regras foram redigidas pelos próprios beneficiários do sistema para institucionalizar o privilégio e garantir o financiamento público de suas carreiras. Resta saber até quando a sociedade brasileira, amazonense, assistirá a esse desmonte institucional de forma passiva e omissa.

Tags: eleiçãooportunismo políticopolítica
Emmanuel Baladeira

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