Há algo errado quando um parlamentar investigado por suspeita de “rachadinha” — prática que corrói a essência do serviço público — retorna ao exercício do mandato usando tornozeleira eletrônica, como se nada tivesse acontecido. Mais grave ainda é o silêncio vergonhoso da Comissão de Ética da Casa, que assiste, imóvel, à transformação do absurdo em rotina.
Além disso, não se trata aqui de antecipar julgamento ou desrespeitar o devido processo legal. Todo cidadão tem direito à ampla defesa. Mas mandato eletivo não é um direito individual comum: é uma concessão da sociedade, baseada na confiança pública. E confiança não convive com suspeitas graves, muito menos com investigações conduzidas sob sigilo que impedem a transparência mínima necessária ao escrutínio democrático.
O parlamento municipal deveria ser o espaço mais próximo da população, o primeiro a dar exemplo de integridade. Permitir que um vereador sob suspeita grave, monitorado pela Justiça, exerça normalmente suas funções, é inverter completamente essa lógica. É transformar o extraordinário em trivial, o inaceitável em tolerável.
A deterioração dos padrões éticos

A tornozeleira eletrônica não é um detalhe irrelevante — ela é um símbolo. Representa uma restrição imposta pela Justiça diante de indícios fortes para justificar vigilância. Como, então, conciliar essa condição com o pleno exercício de um cargo que exige independência, autoridade moral e credibilidade? A resposta honesta é: não se concilia.
A omissão da Comissão de Ética é o capítulo mais preocupante desse episódio. Criada para zelar pela integridade institucional, ela falha quando mais se precisa dela. Ao não agir, legitima a deterioração dos padrões éticos. Envia à população uma mensagem vergonhosa: a de que tudo é tolerável, desde que não haja condenação definitiva. É a ética reduzida ao mínimo legal, quando deveria aspirar ao máximo moral.
Esse tipo de tolerância não é neutro: alimenta o cinismo, afasta o cidadão da política e reforça a percepção de que o sistema protege a si mesmo, independentemente da gravidade dos fatos. Enquanto isso, bons quadros são desestimulados a participar da vida pública, e a democracia perde em qualidade.
Por outro lado, se ainda resta algum compromisso com a ética pública, é hora de agir. A Comissão de Ética precisa sair da letargia, instaurar procedimentos, dar transparência ao que for possível e sinalizar, de forma inequívoca, que mandato não é escudo para condutas suspeitas. A política só recupera sua dignidade quando estabelece limites claros e os faz valer.
No fim das contas, não é apenas sobre um parlamentar. É sobre o padrão que se aceita. E o padrão, hoje, está vergonhosa e perigosamente baixo.



