{"id":979,"date":"2022-04-14T17:28:56","date_gmt":"2022-04-14T20:28:56","guid":{"rendered":"http:\/\/clubedabaladeira.com.br\/?p=979"},"modified":"2022-04-14T18:38:15","modified_gmt":"2022-04-14T21:38:15","slug":"o-cascudo-da-dialeda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/2022\/04\/14\/o-cascudo-da-dialeda\/","title":{"rendered":"O CASCUDO da DIALEDA"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Responda com sinceridade \u2013 voc\u00ea j\u00e1 levou um cascudo?<\/p>\n\n\n\n<p>Estou falando daquele cascudo bem aplicado, que come\u00e7a na sua cabe\u00e7a, desce dando choque pelo corpo inteiro e descarrega na sola do p\u00e9. Pois \u00e9! Foi um desses cascudos que eu levei quando tinha por volta de 9 anos de idade, na porta de minha casa, na Avenida Get\u00falio Vargas, em Manaus.<\/p>\n\n\n\n<p>Quer saber como foi? Quem aplicou o cascudo? Eu vou contar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Na idade de 8 a 10 anos, andar de bicicleta era uma das brincadeiras prediletas da meninada da minha rua. Tr\u00eas casas ap\u00f3s a minha, morava Dialeda, filha do Seo Jacy, irm\u00e3o do m\u00e9dico preferido da nossa fam\u00edlia, Dr. Jorge Aucar, que tamb\u00e9m morava na Get\u00falio Vargas, mais acima de nossa casa,  no trecho entre as ruas Leonardo Malcher e a Ramos Ferreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Dialeda era uma menina da minha idade, magra, alta e que tinha um divertimento predileto \u2013 malinar dos colegas. Era a mais alta da gurizada da rua e n\u00e3o temia a ningu\u00e9m. Irritar ou tentar encarar a Dialeda era brincar com a sorte. Ela aproveitava-se da sua altura e usava como arma predileta o famoso cascudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu me dava bem com Dialeda. O pai dela tinha em sua casa uma bomba de encher pneu de bicicleta muito bacana e que n\u00e3o exigia muito esfor\u00e7o. Nos finais de tarde fazia fila na porta da casa do Seo Jacy para uso da tal bomba de encher pneu..<\/p>\n\n\n\n<p>Quem brigava com Dialeda, obviamente que perdia esse privilegio, n\u00e3o por conta do Seo Jacy, mas por medo de levar mais cascudos enquanto enchia os pneus da sua bicicleta.<\/p>\n\n\n\n<p>Certo dia, eu e Dialeda brinc\u00e1vamos com nossas bicicletas na cal\u00e7ada. De repente, me desequilibrei na bicicleta e a minha roda dianteira esbarrou na roda traseira da bicicleta de Dialeda.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem estar esperando por aquele esbarr\u00e3o, Dialeda foi ao ch\u00e3o. Foi uma daquelas quedas que voc\u00ea n\u00e3o sabe se ri ou se socorre a v\u00edtima. Antes de beijar o ch\u00e3o literalmente, ela saiu catando cavaco por alguns metros. Em seguida, antes mesmo de eu esbo\u00e7ar um pedido de desculpas, ela j\u00e1 estava de p\u00e9 e j\u00e1 havia me aplicado um tremendo cascudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porra, doeu at\u00e9 na alma. Eu senti a energia daquele cascudo sair pela sola do meu p\u00e9. Do\u00eda tanto que eu fiquei sem qualquer a\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, Dialeda j\u00e1 tinha pego a sua bicicleta e ido embora para sua casa. Tinha ralado feio um dos joelhos no ch\u00e3o cacarento da cal\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda zonzo com a porra do cascudo, peguei a minha bicicleta e entrei em casa tamb\u00e9m. Ao passar pelo port\u00e3o chorando com a dor do cascudo e com raiva de Dialeda, dei de cara com m\u00e3e Rosalina e vov\u00f3 Graziela conversando no p\u00e1tio logo na entrada de casa. Desci as escadas com a bicicleta e, antes de chegar ao \u00faltimo degrau, veia a \u00fanica pergunta que eu n\u00e3o queria ouvir naquele momento. Mam\u00e3e vendo eu com a cara de choro, indagou-me:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; O que foi que aconteceu Em-ma-nu-el? Mam\u00e3e at\u00e9 hoje era a \u00fanica pessoa que pronunciava o meu nome como se estivesse soletrando. \u00c9 diferente do Emanuel com um \u201cm\u201d s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Ingenuamente, respondi: &#8211; m\u00e3e, Dialeda me deu um cascudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Rosalina olhou s\u00e9ria para mim e disse:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Presta aten\u00e7\u00e3o, Em-ma-nu-el. A pr\u00f3xima vez que voc\u00ea entrar por esse port\u00e3o chorando por que levou cascudo de uma mulher, tu ti preparas para levar uma surra da tua m\u00e3e. Resolve teus problemas l\u00e1 fora e n\u00e3o me entre mais aqui chorando por que apanhou na rua, principalmente de mulher. Completou o serm\u00e3o mandando que eu fosse tomar banho e n\u00e3o sair mais para lugar algum.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00e3o dar margens para mais serm\u00e3o, respondi: \u2013 sim senhora! Vov\u00f3 Graziela, assistindo a tudo, chamou-me, passou a m\u00e3o na minha cabe\u00e7a para ver se tinha algum galo e receitou: &#8211; vai passar gelo! Minha av\u00f3 resolvia todos os problemas com gelo e magn\u00e9sia.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo passou e eu e Dialeda fizemos as pazes. N\u00e3o era a primeira e com certeza n\u00e3o seria a \u00faltima vez. Certo dia, brinc\u00e1vamos de manja-cola. Dialeda sai correndo atr\u00e1s de mim e, ao me alcan\u00e7ar, em lugar de apenas me tocar com a m\u00e3o como todos faziam, lascou um cascudo na minha cabe\u00e7a. Continue correndo pelo menos mais um 20 metros s\u00f3 com a energia acumulada com o cascudo. Parei por alguns segundos e voltei correndo para casa. Abri o port\u00e3o e mam\u00e3e estava sentada no p\u00e1tio. Olhei muito puto para ela e disse:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; M\u00e3e, Dialeda me deu outro cascudo, posso dar uma porrada nela?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta foi no olho \u2013 J\u00e1 devia ter dado!<\/p>\n\n\n\n<p>Fechei o port\u00e3o, voltei para a brincadeira e esperei o momento da vingan\u00e7a. Naquele tempo eu usada umas botas para corrigir defeito no p\u00e9. Eu tinha o chamado p\u00e9-chato, usava botas desconfort\u00e1veis, com palmilhas, e que tinham um bico muito duro, suficiente para incomodar qualquer canela humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem mais alta e mais forte do que eu, para atacar com sucesso a Dialeda tinha que ser por meio de um plano infal\u00edvel. Falhar, nem pensar &#8211; seria fatal! S\u00f3 em pensar em falhar minha cabe\u00e7a latejava imaginando os cascudos de troco.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei na espreita esperando Dialeda passar distra\u00edda. Quando isso aconteceu, n\u00e3o perdi a chance e lasquei uma bicuda na canela dela e j\u00e1 fui entrando em casa gritando: &#8211; dei um chute na canela dela! Dei um chute na canela dela!<\/p>\n\n\n\n<p>O plano de vingan\u00e7a tinha dado certo, mas, passava-me a exigir toda cautela dali em diante. Como voltar a brincar na cal\u00e7ada sem levar em conta o risco de levar outra surra de cascudos. Por precau\u00e7\u00e3o e medo passei alguns dias sem sair de casa. A turma chamava e eu inventava alguma coisa para n\u00e3o ir. O m\u00e1ximo que eu arriscava fazer era ficar olhando da varanda a turma brincar na cal\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro que dessa mesma varanda, longe do alcance de Dialeda, dava para ver perfeitamente a marca de merc\u00fario cromo em cima do local da bicuda que eu havia dado na sua canela. Naquele tempo ainda n\u00e3o existia o Merthiolate incolor. Deve ter doido pr\u00e1 dedeu e isso fazia-me sentir vingado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o demorou muito e fizemos as pazes outra vez. Isso aconteceu no m\u00eas de junho, quando a rua de nossa casa ganhava muita alegria com as festas juninas. A gurizada toda se reunia na porta de casa para brincar, pular fogueira e comer os quitutes da \u00e9poca, preparados por Vov\u00f3 Graziela e por nossa segunda m\u00e3e, Ded\u00e9. Comemor\u00e1vamos todos os dias importantes do per\u00edodo junino e, num desses dias, sempre acontecia de um grupo folcl\u00f3rico se apresentar na porta de minha casa, com toda a gurizada reunida. Ora, n\u00e3o tinha tempo melhor para fazer as pazes com Dialeda, de quem guardo com carinho e muita saudade, boas lembran\u00e7as, boas recorda\u00e7\u00f5es, com a exce\u00e7\u00e3o dos cascudos, obviamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, confesso que me sujeitaria a levar um outro cascudo, s\u00f3 para ter a chance do reencontro com Dialeda, para relembrar das nossas brigas e peraltices e, principalmente, para lhe dizer do quanto foi bom t\u00ea-la como vizinha e como colega de inf\u00e2ncia. Uma inf\u00e2ncia feliz vivida com outros colegas inesquec\u00edveis da avenida Get\u00falio Vargas, entre a Leonardo Malcher e a Ramos Ferreira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Responda com sinceridade &#8211; j\u00e1 levou um cascudo?<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":991,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":["post-979","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-memorias"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/979","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=979"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/979\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":995,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/979\/revisions\/995"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/991"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=979"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=979"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=979"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}