{"id":1006,"date":"2022-04-14T23:54:26","date_gmt":"2022-04-15T02:54:26","guid":{"rendered":"http:\/\/clubedabaladeira.com.br\/?p=1006"},"modified":"2022-04-15T21:25:47","modified_gmt":"2022-04-16T00:25:47","slug":"vamos-dancar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/2022\/04\/14\/vamos-dancar\/","title":{"rendered":"VAMOS DAN\u00c7AR!"},"content":{"rendered":"\n<p>Dia desses recebi  um v\u00eddeo no facebook relembrando o tempo em que dan\u00e7\u00e1vamos de rostos colados nos bailes da vida. Eram tempos bons que n\u00e3o voltam mais e que me fazem lembrar do Moranguinho do Ideal, do Bancr\u00e9vea, do Cheik Clube, do Samb\u00e3o da Uni\u00e3o Esportiva Portuguesa e de outros lugares da minha cidade de Manaus, onde vivi uma inf\u00e2ncia e uma adolesc\u00eancia de muitas alegrias e encantos.<\/p>\n\n\n\n<p>Falando em dan\u00e7ar, na minha juventude eu lembro de ser um pouco t\u00edmido. Confesso que tinha uma certa dificuldade nas festinhas e bailes para chegar junto de uma paquera e convid\u00e1-la para dan\u00e7ar, apesar de saber que o m\u00e1ximo que poderia receber era um \u201cn\u00e3o\u201d ou a desculpa manjada &#8211; \u201cestou esperando o meu namorado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Um colega de rua dessa \u00e9poca, dizia-me que ele n\u00e3o tinha nada a perder durante um baile. Se tentasse tirar 10 gurias para dan\u00e7ar, e s\u00f3 uma aceitasse ir para o sal\u00e3o, computava como conquista. Eu rodava o sal\u00e3o inteiro a procura de algu\u00e9m com quem simpatizasse para convidar para dan\u00e7ar. Quando isso acontecia, no meio do sal\u00e3o, ao som das m\u00fasicas rom\u00e2nticas daquela \u00e9poca, vinha a fase da conquista, a troca de olhares, o sussurro no ouvido, aquele abra\u00e7o mais apertado a cada m\u00fasica tocada pela banda, o rosto colado, o beijo consentido ou aquele beijo roubado que normalmente era muito mais gostoso. Por fim, a sa\u00edda do baile de m\u00e3os dadas e o beijinho de despedida at\u00e9 o pr\u00f3ximo encontro j\u00e1 ansiosamente esperado. No caminho de volta para casa, \u00edamos os amigos conversando e contando uns aos outros as conquistas. Era muito divertido, pois, at\u00e9 aquele que n\u00e3o pegou ningu\u00e9m no baile, fantasiava uma conquista para contar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando ao v\u00eddeo que mencionei, na verdade ele me trouxe \u00e0 mem\u00f3ria um fato muito curioso que aconteceu comigo e que lembro com saudade e alegria. &nbsp;J\u00e1 mais maduro, atravessando a casa dos 30, fui morar na cidade de Rio Branco, capital do Estado do Acre, levado por uma parceria entre o Governo do Estado do Acre e a Institui\u00e7\u00e3o em que trabalho at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheguei em Rio Branco sem conhecer praticamente ningu\u00e9m. Rapidamente me apaixonei pela cidade e pela sua gente. Digo sempre que sou amazonense de nascimento e acreano de cora\u00e7\u00e3o. Num certo dia de fim de semana, uma pessoa com quem havia feito amizade, apareceu onde eu morava para cumprir uma promessa \u2013 levar-me para conhecer um pouco da noite de Rio Branco.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro destino foi o 14 BIS.&nbsp; Um ponto de encontro tradicional e bem frequentado, que ficava ao lado do aeroporto da cidade. Ao chegarmos no estacionamento, come\u00e7ou a cair uma chuva. O tempo fechou e, conhecendo bem as chuvas na regi\u00e3o, n\u00e3o t\u00ednhamos d\u00favidas que era uma chuva que poderia ser ligeira ou durar a noite inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do tempo ruim, resolvemos sair do carro e procurar uma mesa protegida da chuva. O amigo pediu uma cerveja e, para matar a fome, pedimos batatas fritas e uma isca de carne. Terminada a segunda garrafa de cerveja, apesar da boa comida, do bom papo e da boa m\u00fasica ao vivo, o amigo sugeriu que f\u00f4ssemos a um outro local. Voltamos ao carro e fomos ent\u00e3o rodar por outros bares da cidade. Por conta da chuva, todos tinham pouca gente, o que n\u00e3o nos animava a parar. J\u00e1 por volta das 11 da noite, o amigo bate no volante, vira para mim&nbsp; e diz:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Seguinte! S\u00f3 resta agora uma op\u00e7\u00e3o. Vou ti levar para conhecer o SBORBA. Eu acho que voc\u00ea vai gostar \u2013 tenho boas amizades por l\u00e1, inclusive com os gar\u00e7ons que me d\u00e3o tratamento VIP e me ajudam nas conquistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Descreveu-me como sendo um clube frequentado por coroas, ou seja, casais, senhores e senhoras j\u00e1 de certa idade.&nbsp;Quis saber o que ele queria dizer com \u2013 os gar\u00e7ons me ajudam nas conquistas. Disse-me que os gar\u00e7ons n\u00e3o s\u00f3 investigavam como revelavam a ele o nome das coroas que estavam na sua mira de conquista, assim como faziam o trabalho de pombo-correio, entregando os bilhetinhos chamados de \u201ctorpedo\u201d, normalmente escritos em len\u00e7o de papel e com a caneta emprestada do gar\u00e7om.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre esses torpedos, que merece um cap\u00edtulo \u00e0 parte, o&nbsp;detalhe \u00e9 que eles partiam tanto dos coroas, como das coroas em busca de suas conquistas. Era uma estrat\u00e9gia usada em todos os lugares de encontro, inclusive por jovens. Dada a minha timidez, o torpedo passou a ser uma de minhas ferramentas de aproxima\u00e7\u00e3o e conquista. Mandei muitos e recebi alguns inesquec\u00edveis. Entre os recebidos, um deles trouxe-me a seguinte mensagem: \u2013 se procurar vai me achar e, se me achar, sou toda tua. &nbsp;Em resumo, procurei, achei e deu tudo certo naquela noitada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando ao SBORBA, chegando l\u00e1 fomos muito bem recebidos j\u00e1 na entrada e levados para a mesa cativa que meu amigo tinha prefer\u00eancia quando por l\u00e1 aparecia. Na verdade, pelo tratamento que recebemos, conclu\u00ed que ele era um frequentador ass\u00edduo do local e muito querido. Assim que sentamos, logo em seguida veio o gar\u00e7om trazendo uma garrafa de whisky, que depois fiquei sabendo tamb\u00e9m que era do consumo pessoal desse amigo. Ele pagava pela garrafa inteira e ia consumindo at\u00e9 acabar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos apelos, recusei a ideia de tomar uma dose da garrafa de whisky. O gar\u00e7om, tentando me animar, sugeriu que tomasse misturado com coca-cola, mas tamb\u00e9m n\u00e3o me convenceu. Acontece que eu n\u00e3o bebia nem bebo whisky de qualquer natureza. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que, ainda adolescente, inexperiente, durante um dia de carnaval em Bel\u00e9m, na companhia de primos, dei aquela bobeira, tomei um porre maluco e at\u00e9 hoje whisky para mim tem gosto de perfume \u2013 intrag\u00e1vel!<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da chuva, o SBORBA estava com uma frequ\u00eancia boa. Gostei muito do local, do ambiente, da m\u00fasica &nbsp;e principalmente do tratamento recebido. Por conta disso, tive a curiosidade de saber um pouco mais daquele local tido como tradicional da cidade. Sborba \u2013 Sociedade Beneficente dos Oper\u00e1rios de Rio Branco, foi fundado em 1948. A sede fica no centro da cidade e, salvo engano, foi tombada como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico pelo governo do Estado do Acre. \u00c9 um ponto tur\u00edstico da cidade e um dos mais visitados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No momento em que o amigo me passava mais detalhes do clube, de repente sinto uma m\u00e3o pousar com&nbsp; delicadeza sobre o meu bra\u00e7o direito. Virei a cabe\u00e7a para ver do que se tratava e, de p\u00e9 bem ao meu lado, uma senhora simp\u00e1tica e sorridente, lan\u00e7a-me o convite:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Vamos dan\u00e7ar?<\/p>\n\n\n\n<p>P\u00f4, nunca ningu\u00e9m tinha me tirado para dan\u00e7ar. Foi um impacto. Mas, n\u00e3o titubeei e respondi no ato:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Com todo prazer!<\/p>\n\n\n\n<p>Fomos para o sal\u00e3o onde 99,99% dos casais que dan\u00e7avam eram de coroas, todos de \u00f3timo astral e ex\u00edmios dan\u00e7arinos. Proporcionavam um show \u00e0 parte. A maioria dos olhares presentes estavam direcionados ao bailado dos casais que estavam no sal\u00e3o. Envergonhado, puxei a minha parceira para o centro do sal\u00e3o tentando ficar meio escondido dos olhares de avalia\u00e7\u00e3o e reprova\u00e7\u00e3o. Na base do 2 para l\u00e1, 2 para c\u00e1, o \u00fanico passo de dan\u00e7a que eu sabia usar, fui procurando dar conta do recado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo foi passando e aquilo que parecia agrad\u00e1vel e diferente para mim, come\u00e7ou a ficar complicado no sal\u00e3o. Minha parceira n\u00e3o desistia e nem dava sinal de querer dar uma pausa. Uma pequena pausa para descansar e eu voltaria para o sal\u00e3o com ela com todo prazer. No papo de p\u00e9 de ouvido, tentei jogar algumas indiretas, mas a parceira queria mesmo era dan\u00e7ar e nisso as acreanas s\u00e3o nota 10. Entretanto, de minha parte, sedent\u00e1rio convicto desde a faculdade, as pernas come\u00e7aram a falhar e a direita j\u00e1 dava sinal de fadiga e amea\u00e7a de c\u00e2imbra na batata. Era o vexame se anunciando. Mas, de repente, a parceira sussurra no meu ouvido a frase mais esperada:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Quando voc\u00ea quiser parar \u00e9 s\u00f3 me avisar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ufa! Senti um tremendo al\u00edvio. Mas, educadamente, esperei a m\u00fasica acabar de tocar. Sem ousar perguntar se ela queria dan\u00e7ar mais uma antes de parar, j\u00e1 fui puxando-a para fora do sal\u00e3o. Sa\u00edmos em dire\u00e7\u00e3o da mesa do meu amigo. \u00c0 dist\u00e2ncia, j\u00e1 percebi que ele n\u00e3o estava mais \u00e0 mesa e nem a garrafa de whisky. Na minha cabe\u00e7a s\u00f3 veio um pensamento: &#8211; cansou de me esperar, achou que eu tinha me dado bem e resolveu ir embora.&nbsp;J\u00e1 chegando pr\u00f3ximo \u00e0 mesa, a parceira me diz animada:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; L\u00e1 est\u00e1 o seu amigo na mesa com minhas amigas. Olhei e l\u00e1 estava ele de fato conversando animadamente com as 3 senhoras. Pouco depois que levantei da mesa para dan\u00e7ar, ele pegou a sua garrafa de whisky e foi \u00e0 mesa dessas senhoras, dizendo-se solit\u00e1rio e pedindo companhia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fui apresentado \u00e0s tr\u00eas coroas e, durante o papo que foi at\u00e9 a \u00faltima m\u00fasica daquela noite, revelaram que tinham tirado no par ou \u00edmpar para decidir quem ia me convidar para dan\u00e7ar. Quando perguntei porque uma delas n\u00e3o foi tirar o meu amigo para dan\u00e7ar, responderam&nbsp; que j\u00e1 conheciam ele de outras festas e sabiam que n\u00e3o gostava ou n\u00e3o sabia dan\u00e7ar. O papo foi em frente pelo resto da noite, com muita alegria e boas gargalhadas. Uma delas, com um repert\u00f3rio enorme de piadas, divertia-nos n\u00e3o s\u00f3 com as piadas, mas principalmente com a maneira de interpret\u00e1-las. Digna do que hoje chamamos de com\u00e9dia stand-up.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na sa\u00edda do clube, uma chuva fina continuava a molhar a cidade, com aquele friozinho tradicional e gostoso da regi\u00e3o acreana. As novas amigas n\u00e3o estavam motorizadas e n\u00e3o cabiam todas no carro de meu amigo. Como eu estava morando nas proximidades do Sborba, meu amigo deixou-me primeiro e voltou para busc\u00e1-las e&nbsp; leva-las at\u00e9 suas casas.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois desse epis\u00f3dio, voltei outras duas ou tr\u00eas vezes ao Sborba. Num desses retornos tive a oportunidade de reencontrar esse grupo simp\u00e1tico e alegre de amigas. Dois para l\u00e1, dois para c\u00e1, a verdade \u00e9 que j\u00e1 se passaram mais de 30 anos e eu guardo com enorme carinho, para sempre, a lembran\u00e7a daquele dia muito especial, na companhia breve de pessoas que nunca tinha visto na minha vida, mas que me proporcionaram algumas horas impag\u00e1veis de descontra\u00e7\u00e3o e de alegria que jamais ser\u00e3o esquecidas. &nbsp;Vamos dan\u00e7ar!&#8230;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira vez ningu\u00e9m esquece.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1007,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":["post-1006","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-memorias"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1006","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1006"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1006\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1011,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1006\/revisions\/1011"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1007"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1006"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1006"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/clubedabaladeira.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1006"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}